Natal no Japão

Há poucos anos, o Natal no Japão era um dia como outro qualquer.

Como as principais religiões do país são o budismo e o xintoísmo, não havia razão para essa data ser comemorada por aqui. Só que, nas últimas décadas, o Natal chegou ao Japão (assim como outras festas ocidentais que também foram adotadas pelos japoneses, como o Halloween), e vem se tornando um evento cada vez maior por aqui – apesar de ter um significado bem diferente do que tem para nós. Afinal, era de se esperar que a importação de uma data como essa sofresse suas adaptações.

Aqui cito as principais diferenças que percebo entre as festividades natalinas para nós e para os nipônicos:

A data é unicamente comercial

Nāo há qualquer sentido cristão na comemoração natalina por aqui. Para ser mais clara, a maioria dos japoneses parece nem fazer idéia de que a celebração do nascimento de Jesus tenha alguma relação com a comemoração do Natal. Tampouco há uma comoção geral para a solidariedade, ou qualquer intenção de ir a igreja (ou ao templo) nesse dia: é apenas comercial mesmo. Apesar de também ser para muitas pessoas no Brasil! Mas a verdade é que a grande maioria dos brasileiros é tocado de alguma maneira pelo “espírito de Natal” – que aparentemente não conhece o caminho para esse lado de cá.

 

Não é feriado

Nesse ponto, o Natal continua sendo um dia como outro qualquer: não é feriado aqui no dia 25, ou seja, a menos que a data caia em um final de semana, as pessoas trabalham e vão para a escola normalmente no dia e na véspera. Há, no entanto, um feriado próximo: em 23 de dezembro é comemorado o aniversário do imperador, que neste ano será em uma segunda-feira. O dia 25 cai em uma quarta, então nada de folga para os japoneses no Natal de 2013.

 

As decorações são lindas de morrer

Minha percepção é de que não há nada “meia-boca” aqui no Japão: quando o japonês resolve fazer, ele faz muito bem feito. E quando eles resolveram que decorariam as ruas para o Natal, não foi diferente. As iluminações são a principal atração, e são de tirar o fôlego! Há muitas ruas, parques e shoppings que já tem tradição em preparar iluminações lindíssimas, e nessa época do ano atraem milhares de pessoas que vem assistir o espetáculo de luzes e. E claro, como bons japoneses, tirar muitas fotos.

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Tokyo Midtown: iluminação de 2012. A iluminação é patrocinada pela Fly Emirates.

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Keyakizaka-dori: as luzes ficam vermelhas por 10 minutos a cada hora. foto: House of Japan

As árvores de Natal também são populares por aqui. Shoppings e lojas montam árvores muito bem decoradas, e inclusive muitas famílias japonesas já montam uma em suas casas. Presépios não. Não se vê em lugar algum, nem nas decorações e nem para vender!

 

Bolo de Natal

Parece que o presente de Natal mais tradicional por aqui é mesmo o bolo. Todas as confeitarias que se prezem criam edições especiais de bolos para o Natal, o tal do “Kurisumasu Keeki”. Isso mesmo, Christmas Cake. Mas não imagine nossas tortas para a família inteira comer na ceia, no almoço do dia seguinte e ainda congelar um pedaço para a próxima festa! São bolinhos bem pequeninhos e bem caros, geralmente feitos com morangos e chantilly.

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Mas a parte mais comovente da história do bolo para mim é a comparação com as mulheres. Todos esses bolinhos sazonais devem ser vendidos até o dia 25, ou são considerados velhos e passados. Um bolo de Natal no dia 26 é um bolo velho, que deve ser descartado ou vendido com um mega desconto para compensar. Assim falam das mulheres também: devem se casar até os 25, ou são chamadas de Kurisumasu Keeki, principalmente por colegas de trabalho e até por “amigas” já casadas. Bullying!

 

Natal ou dia dos Namorados?

O Natal é uma data romântica para os japoneses, muito semelhante ao dia dos namorados para nós. Os casais trocam presentinhos e saem pra jantar, e é crucial para as solteiras ter alguém com quem sair na noite do dia 24. Minha professora de japonês me perguntou no ano passado se eu e meu marido iríamos fazer algo romântico no Natal. Eu estava dando pulos de alegria porque estávamos indo para o Brasil, e expliquei para ela que o Natal para nós era uma data que se passava em família, com a casa cheia e a mesa farta. Ela ficou bem surpresa.

 

Peru de Natal? Não. KFC!!

A “ceia de Natal” mais popular aqui é, pasmem: Kentuchy Fried Chicken. Parece que, na década de 70, a rede de fast food identificou que não havia tradição de comer peru no Japão e criou a campanha “Kentuchy for Christmas”. Desde então, esse é o “prato” típico das “ceias” de Natal japonesas. Muitos encomendam seu baldinho de frango frito com bastante antecedência, e no dia de Natal as filas nos restaurantes da rede são imensas. O mais engraçado é que muitos pensam que é tradição comer KFC no Natal, pelo menos nos Estados Unidos!

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Papai Noel, é você?

Essa mistura de costumes e de invenções de novos significados para o Natal resultou em uma decoração em um shopping de Tóquio com Papais Noéis fazendo as mais diversas “releituras”do nosso bom velhinho.

Papai Noel Amigo da Justiça

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Fui pesquisar para ver se encontrava alguma explicação para essa distorção de identidade do Papai Noel, ou “Santa-san”, como é chamado por aqui, e não encontrei nenhuma razoável. Apenas reafirmei algumas constatações que já tinha feito: 1) as japonesas adoram se vestir de Mamãe Noel ; 2) os japoneses adoram vestir “coisas” de Papai Noel – animes, robôs, etc ; 3) ele é mais amado pelos adultos que pelas crianças!

Amando o Papai Noel

foto: G1

 

É Inverno!

Apesar dessa insistência irritante do brasileiro em simular neve no Pinheiro de Natal, a verdade é que o nosso Natal é no calor intenso do verão. Foi assim sempre, e sempre será, independentemente de quantas máquinas de neve artificial Gramado e Moema quiserem colocar para funcionar.

Mas aqui é frio. Bem frio! O que para mim só atrapalha, pois em dezembro ainda não chega a nevar em Tóquio, mas já é frio o suficiente para causar sensibilidade no dente de quem dá um sorrisinho na rua. Já é necessário usar roupas muito grossas para dar um passeio mais longo na rua – e esse é o motivo de eu não ter fotos da iluminação de Natal de 2013.

Mas eu gosto do inverno, e mesmo os dias mais frios por aqui costumam ter um solzinho e céu azul. Então o negócio é ignorar as fotos de praia, churrasco e piscina no facebook e curtir as coisas boas do Natal no frio: tomar um chocolate quente na caneca de Natal do Starbucks, por exemplo. 🙂

 

É LONGE!

De tantas diferenças, pequenas e grandes, o que mais pesa para mim é estar longe da família. A casa dos meus pais sempre foi o QG da família para as festas de Natal mais animadas da história, com a casa sempre cheia de gente querida e comida gostosa. Agora, que as “crianças” da família já estão fazendo suas próprias crianças, dá uma tristezinha extra saber que não vamos estar juntos fisicamente nesse dia e acompanhar as reações das crianças à decoração e aos presentes.

Mas vamos estar aqui, celebrando entre amigos que estão nesse mesmo barco, fazendo as nossas orações para lembrar o sentido que essa data tem para nós e agradecer o ano maravilhoso que tivemos, renovando a esperança de um 2014 ainda melhor!

MERI KURISUMASU PARA TODOS!!!

Naoshima – A Iha das Artes

Pessoal!!

Que vergonha passar tanto tempo sem atualizar o blog… Obrigada a todos que me escreveram nesse período de ausência! Fiquei muito feliz em saber que algumas pessoas vinham acompanhando o blog e sentiram falta de postagens novas!

Vou fazer o possível para escrever mais!!!

Esse é o texto que saiu na edição de agosto da revista Usina da Cultura, mas em uma versão um pouco mais longa aqui no blog. 

É um lugar que eu ainda não visitei, mas que certamente está na mira para uma próxima viagem!

A ILHA DAS ARTES

Localizada na parte sul do Japão, no chamado Mar Interior, encontra-se Naoshima: uma pequena ilha de aproximadamente 3 mil habitantes, hoje conhecida mundialmente pelos admiradores da arte moderna. Hoje, destaco, pois há pouco mais de 20 anos a área encontrava-se esquecida, sofrendo com a poluição industrial e com poucas perspectivas de futuro.

A ilha fica a aproximadamente 3 horas trem de Tóquio, próxima à cidade de Okayama. A cidade também pode ser acessada de avião (vôo de aproximadamente 75 min partindo do aeroporto de Haneda), ou através de uma viagem noturna de ônibus (aproximadamente 10 horas).

O surgimento da arte e da arquitetura neste lugar tão improvável pode ser creditado à Benesse Corporation, uma grande empresa japonesa da área de educação, cujo presidente é o bilionário e amante das artes Soichiro Fukutake. Motivado pela preocupação com o envelhecimento e diminuição da população de sua região natal, o empresário decidiu realizar consecutivos investimentos na ilha, o que desde 1992 têm alimentado a transformação de Naoshima e também das ilhas próximas.

Os projetos ficaram por conta do arquiteto mais famoso do Japão, o premiadíssimo Tadao Ando, que possui inclusive um Pritzker Prize (considerado o Nobel da arquitetura). Ando abarcou no sonho de Fukutake, e sua fama foi de grande contribuição para o projeto. Ele já assina sete museus na ilha, que contam com acervos de altíssima qualidade. Reúnem obras de dezenas de artistas japoneses e estrangeiros, como Jean Claude Monet e Jasper Johns, que se encontram não apenas em museus: uma caminhada pela ilha desvenda esculturas a céu aberto e belíssimas obras de arte moderna que usam a natureza como moldura. Os próprios museus estão em contato com a natureza e a utilizam para uma proporcionar uma interação singular.

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A abóbora gigante da famosa artista japonesa Yayoi Kusama. Foto: Estela Souza

A revitalização trouxe vida nova também as ilhas vizinhas, que a exemplo de Naoshima, também tentam se reerguer com a ajuda das artes. Uma delas, Ogijima, encolheu ao ponto de hoje morarem lá somente 200 pessoas. O que ocorre é que a população de pescadores e agricultores dessas localidades vinha envelhecendo, e os jovens iam embora para os grandes centros, deixando escolas fechadas e casas abandonadas. Casas estas que agora estão sendo usadas para instalações, em especial neste ano, no qual acontece a “Setouchi Triennale”– uma trienal que está expondo cerca de 200 obras em 12 ilhas da região, reunindo o trabalho de 210 artistas de 24 países.

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Instalação em uma das casas abandonadas de Ogijima. Foto: Estela Souza

Arte, arquitetura e natureza coexistindo e convidando à apreciação. O sonho do empresário de recuperar a comunidade através da arte tornou-se realidade, e é visitado por cerca de 400 mil pessoas todos os anos. Naoshima e as ilhas do mar interior despertaram de seu sono profundo, e estão celebrando os frutos desse projeto tão inspirador. Uma verdadeira prova do poder transformador da arte!

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Foto: Estela Souza

 

Churrasco no Japão

Como bons gaúchos que somos, uma das nossas maiores preocupações sobre a mudança para Tóquio era como sobreviveríamos sem a nossa dupla sagrada: churrasco e chimarrão.

O chimarrão nós tratamos de garantir antes mesmo de sair do Brasil: cuia, bomba e 6kg de erva mate embalada à vácuo foram distribuídos nas nossas malas, e vieram para o Japão conosco. Além disso, deixamos familiares em sobreaviso para enviar mais quando necessário.

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Mas e o churrasco? Não tinha como trazer picanha e costela na mala. Muito menos a churrasqueira! Então, chegando aqui, começamos a arquitetar o que faríamos quando batesse aquela saudade do nosso amado churrasquinho.

Ainda nem havíamos alugado apartamento e já pensávamos em comprar uma churrasqueirinha “paulista” para a sacada, mas fomos avisados por amigos que já moram aqui há mais tempo que não é permitido fazer churrasco na maioria dos prédios e parques, porque a fumaça pode incomodar. Essa é a filosofia do japonês: se vai incomodar alguém, é proibido.

Logo descobrimos que nem tudo estava perdido quando conhecemos o Barbacoa (www.barbacoa.com.br), rede de churrascarias que tem 3 restaurantes aqui em Tokyo. Uma delícia! O mais perto da nossa casa é o de Aoyama – aproximadamente 15 minutos de bicicleta. O preço para um almoço no final de semana, incluindo Buffet, Churrasco, uma bebida e sobremesa fica em torno de 3.600 JPY, que hoje dá mais ou menos R$75,00/pessoa.

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Fomos também conhecer o Tucano’s (http://www.pjgroup.jp/tucanos/p_tucanos/), outra churrascaria brasileira que fica em Shibuya. A noite, tem até umas meninas que fazem show de samba e convidam o pessoal para dançar. Os japoneses parecem adorar! Aqui o almoço de domingo sai por 2.900JPY sem bebida, ou seja, mais ou menos R$60,00/pessoa.

Ok, já são algumas opções. Mas definitivamente não para ir todos os finais de semana.

Uma curiosidade daqui é que os restaurantes costumam ter um limite de 2 horas para permanência. Faltando alguns minutos, o garçom anuncia o “Last Order” e em seguida já traz a conta. É interessante, pois assim o restaurante garante o giro. É possível planejar melhor as reservas, o tempo máximo de espera, etc. Mas a verdadeira razão dessa regra é, segundo nossa suspeita, o fato de que se o restaurante não estabelecesse um limite de tempo, as pessoas passariam o dia inteirinho – ou a noite – ali.

Mas a graça do churrasco para nós, e aqui só quem é gaúcho entende, não é apenas comer. É toda a “função” que já se inicia com a escolha da carne, e que reúne todos por horas às voltas da churrasqueira, beliscando aperitivos e contando “causos”.

Imagine a nossa felicidade quando, na entrega das chaves do nosso apartamento, durante a “palestra” explicando as regras do edifício, fomos informados que é permitido fazer churrasco nesse prédio!!! Nossa reação foi tão descontrolada que a japonesa quase mudou de idéia. Veja este vídeo e imagine a cena.

Logo já compramos a nossa churrasquerinha, carvão e apetrechos para assar.

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Aos poucos fomos descobrindo mercados de produtos brasileiros que entregam em casa, resolvendo também o nosso medo de ficar sem erva-mate.

Quitandinha: http://www.quitandinha.com

Tele-Amigos: http://www.tele-amigos.com

Bom Preço: http://www.bomprecomercado.com/

A carne é quase sempre australiana, e é bem gostosa! Dá pra comprar em bloco ou fatiada, escolhendo inclusive a espessura do corte, e o kg custa só R$38,00!!!! Além da picanha, um outro corte que conquistou nossos corações foi a “bananinha da costela”, aproximadamente R$34,00/kg.Já fizemos vários churrascos aqui na nossa sacadinha, e também ao ar livre nos parques onde é permitido. Até o 20 de setembro do ano passado comemoramos com churrasco.

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Tenho MUITA sorte de ter me casado com um dos dois melhores assadores do mundo!!! (o outro é meu pai). O churrasco do Tiago fica SEMPRE um espetáculo, só de escrever já fico com água na boca! 🙂

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É claro que temos muita saudade do ritual tradicional do nosso churrasquinho gaúcho, mas aqui também nos viramos muito bem!!!