Oyasuminasai

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Todas as noites, depois do banho do meu bebê, eu o amamento e o coloco para dormir. Enquanto faço isso, observo a privilegiada vista da pequena fração da cidade que cabe à janela do quarto dele. Todas as noites, gasto alguns minutos a mais divagando sobre a quantidade de vida que acontece ali fora. E quantas vidas estão ali! Milhares de japoneses, e de estrangeiros. Americanos, chineses, indianos, filipinos, africanos… Há mais nacionalidades aqui do que eu veria em uma vida inteira na minha pequena (e amada) cidade natal. Vejo as luzes, e imagino as histórias. Há pessoas trabalhando, jantando em suas casas ou nas centenas de restaurantes que ficam nessas duas ruas mais brilhantes. Há pessoas cantando nos karaokes, pessoas jogando pachinko, pessoas comprando e vendendo – de verduras à eletrodomésticos. Taxistas, motoboys, ciclistas. Turistas e executivos hospedados nos hotéis. Elevadores panorâmicos sobem e descem nos edifícios, e de vez em quando passa algum avião para colorir também o céu com luzes piscantes. Para onde estará indo? Ou de onde estará voltando?
Enterrado embaixo de tudo isso ainda tem mais uma camada de vida que não enxergo daqui: no metrô, mais pessoas vêm e vão. Voltam para suas casas. Felizes, cansadas, esperançosas ou desiludidas, bêbadas e sóbrias, para encontrar a família ou a solidão.
Quanta coisa estão fazendo as pessoas que vejo todas as noites da janela, e as quais eu jamais vou conhecer.
Quando o corpinho do bebê fica mais pesado, é sinal que o soninho já aprofundou. Dou nele um beijinho de boa noite, e ao fechar a cortina, dou boa noite também para essa pequena parte da cidade, tão familiar e tão desconhecida.

*oyasuminasai em japonês é o boa noite na hora de dormir.

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