Um olhar sensível sobre Tóquio

Vídeo

Eu assisti esse vídeo pela primeira vez em 2011, assim que soube que viríamos morar no Japão.
Comecei a pesquisar sobre a cidade e encontrei ele.
E adorei, mesmo sem entender muitas das cenas e imagens.
Mas na época eu li tanta coisa que não memorizei nem salvei onde foi que eu havia assistido, ou o título, ou alguma pista para encontrá-lo de novo!
Desde que cheguei aqui procurei e desisti várias vezes, até que hoje consegui!
É um olhar bem sensível sobre a cidade, com uma trilha linda. Gostei ainda mais agora, já que reconheço muita coisa!
Para quem já veio ao Japão, é um presente. Para quem ainda não veio, um convite!

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Sumô: Olhando mais de perto

Na revista Usina da Cultura do mês de junho, conto um pouco sobre as minhas descobertas assistindo sumô pela primeira vez. Aqui no blog, conto a mesma história com alguns detalhes a mais!

Todo mundo já viu ou ouviu falar de sumô: aquela luta japonesa em que os lutadores são gordinhos, usam um penteado diferente e vestem uma sunga bem esquisita. Pelo menos é assim que a grande maioria dos ocidentais enxerga esse esporte. Comigo não era diferente: até morar no Japão, meu contato mais próximo com o sumo havia sido através do Honda, do Street Fighter.

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Pois bem, a coisa mudou bastante de figura para mim quando fomos assistir as finais do “Grande Torneio de Sumô de Verão”, no último domingo de maio, aqui em Tóquio!

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Havíamos comprado os ingressos há quase dois meses – é assim que tem que ser quando se mora em um país tão populoso. Deixando para a última hora, como nós brasileiros adoramos fazer, corre-se o risco de todos os lugares estarem vendidos.

O TORNEIO:

São apenas 3 por ano em Tóquio. Outros três são realizados nas cidades de Nagoya, Fukuoka e Osaka, totalizando 6 campeonatos anuais, com a duração de 15 dias consecutivos cada. O campeão é definido por pontos, sendo que cada vitória vale 1, e cada lutador tem 1 luta por dia, podendo somar até 15 pontos. Se no dia da final houver empate para o primeiro lugar, aí sim, será realizada uma luta extra para desempatar e definir o grande vencedor.

A LUTA

As lutas vão acontecendo em ordem crescente de importância, ou seja, os sumotoris que ocupam as melhores colocações no ranking são os que lutam por último. A peleia em si é muito simples, rápida e fácil de entender. Quando digo rápida, pense em muito rápida: raramente excede 10 segundos! Para vencê-la, basta que o oponente pise fora do ringue ou que encoste no chão qualquer parte do corpo que não as solas dos pés.

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Em compensação, os rituais efetuados antes de cada combate levam em torno de 5 minutos! É que o sumô tem sua origem na religião nativa do Japão, o Xintoísmo. Nos primórdios, dizem que a luta ocorria para entreter os deuses e pedir por uma boa colheita. Desde então, muita coisa mudou, especialmente no que se refere a regras, categorias e profissionalização do esporte. Mas os rituais são heranças da religão, e proporcionam um show a parte. Entre os mais curiosos estão:

– o ritual de apresentação coletiva dos lutadores antes do início das lutas de cada categoria, na qual eles usam uma espécie de avental especial para essa ocasião;

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– o famoso movimento de levantar a perna e bater os pés no chão, para espantar os maus espíritos

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– a ação de jogar sal no ringue (mais de uma vez), para purificá-lo;

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– o movimento de abrir bem os braços, para mostrar que estão desarmados.

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O ÁRBITRO:

O árbitro usa um modelo de kimono inspirado nas vestimentas dos Samurais no período Kamakura (1185–1333), e um chapéu semelhante ao do sacerdote xintoísta.

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OS LUTADORES

Os praticantes de sumô são chamados Sumotoris, mas os profissionais são conhecidos como Rikishis.

Os rikishis são distribuídos em seis divisões, sendo que somente os que lutam nas duas primeiras recebem salários. A rotina não é nada fácil: eles vivem em comunidades, onde diariamente passam por rigorosos treinamentos para fortificar o corpo e o espírito.

A “dieta” consiste em ingerir aproximadamente 8.000 calorias por dia. Os que precisam ganhar peso, podem chegar a ingerir até 15.000. Mas não se engane: essa alimentação não consiste em comer à vontade e sem culpa tudo o que sonhamos! São 2 refeições por dia: uma espécie de sopa com carnes, vegetais e massa – o chankonabe. O complemento é feito com arroz e, quem diria, com aquela cervejinha para ajudar a encorpar.

Apesar do aspecto de gordura mórbida, a gordura que acumulam os lutadores de sumo é a subcutânea, que é bem menos prejudicial à saúde do que a gordura visceral, normalmente acumulada por pessoas obesas. Isso se dá, principalmente, devido à combinação do tipo de alimentação aos exercícios físicos.

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GAIJINS NA ÁREA

Uma das coisas que me surpreendeu foi a forte presença de estrangeiros (gaijins) entre os rikishis. Há atletas de várias nacionalidades, e podemos nos orgulhar: temos um brasileiro na seleta e concorrida primeira divisão! Ele se chama Ricardo Sugano, ou Kaisei Ichiro – seu nome de guerra.

A participação (e destaque) de estrangeiros no esporte cresceu bastante nos últimos anos, tanto que os últimos 4 Yokozuna (campeões supremos, um título conferido aos atletas que vencem muitos torneios) não são japoneses. Dentre os estrangeiros, destacam-se os mongóis, que – diga-se passagem – são os asiáticos mais favorecidos geneticamente nos quesitos força e altura.

Altura e peso não só favorecem, como são pré-requisitos para o atleta profissional.  Os que não têm no mínimo 75kg e 1,73 de altura até podem ser admitidos, mas não antes de passar por testes físicos. No passado, antes de serem proibidas, próteses de silicone foram implantadas na cabeça de lutadores para atingir a altura mínima requerida, o que rendeu alguns apelidos de “cabeça de cone”

Além da força, eu não poderia deixar de mencionar a flexibilidade e a agilidade do profissional desse esporte – apesar de seu tamanho sugerir o contrário. Essas características ficam evidentes no exato momento em que a luta tem início, quando o potente primeiro impacto é rapidamente provocado e absorvido, dando início a um perspicaz jogo de força e estratégia.

Outra curiosidade é que não há categorias de peso. No dia em que assistimos, vimos um estrangeiro fora dos padrões enfrentar um adversário muito mais pesado. E quando todos pensavam que ele seria esmagado, surpresa! O magrinho conseguiu fazer o adversário pisar fora do ringue.

Nem sempre as coisas são como parecem à primeira vista. Olhando o sumo um pouco mais de perto, pude enxergar a beleza desse esporte e entender melhor um pouco do que ele representa para o povo japonês. Além disso, aprendi a respeitar tanto a história de dezenas de séculos dessa luta, como também esses dedicados atletas, que passam por muitos sacrifícios para chegar ao topo.

Por favor, faça isso em casa!

Que Tóquio é uma cidade super populosa, não é novidade para ninguém. São aproximadamente 13 milhões de habitantes, sendo que essa população aumenta em mais de 2,5 milhões durante o dia, com os moradores da região metropolitana que vem trabalhar ou estudar. A região metropolitana tem mais de 30 milhões de habitantes – é mais do que a população da Região Sul do Brasil inteira, só que ao invés de estar distribuída em 576.410km², está em 8.304km².

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Com tanta gente, já dá pra visualizar o caos que é viver aqui, né? Se você consegue visualizar o caos, provavelmente deve estar confundindo o Japão com a China. Aqui tudo funciona pontualmente, silenciosamente e com ordem. É claro que algumas pessoas quebram as regras de vez em quando, principalmente os estrangeiros e os jovens. Nada grave, mas como saber usar o espaço comum e respeitar o próximo é fundamental para manter as coisas funcionando, não custa dar uma reforçadinha nas regras.

Com esse objetivo, o Tokyo Metro – maior empresa de metrô do Japão – lança anualmente pôsteres para “lembrar” os usuários de manter as boas maneiras no trem. Em 2008, teve início uma campanha de 3 anos usando o tema “deixe para fazer isso em casa”, na qual o artista Bunpei Yorifuji criou curiosos pôsteres com tradução para o inglês, que tornaram-se um grande sucesso e divertiram muita gente, ganhando até paródias na internet.

Até hoje algumas pessoas replicam esses pôsteres no facebook, por isso resolvi dividir aqui, apesar de ainda não estar morando no Japão na época.

Selecionei alguns dos 36 pôsteres (aqui, a coleção completa – em inglês), chamando a atenção para comportamentos um tanto quanto bizarros que devem ser evitados no trem.

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Por favor, faça isso na praia!

(Não corra para entrar no trem porque é perigoso.)

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Por favor, faça isso em casa!

(Evite comportamento de bêbado)

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(Por favor, divida o assento com os outros)

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Esse é um dos meus preferidos: por favor, não finja que seu guarda-chuva é um taco de golf para não molhar todo mundo ao redor!

(tenha cuidado ao manusear seu guarda-chuva molhado)

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E esse, que mostra o menino DE FONE, mas com o volume muito alto? E no Brasil, que a gente tem que aguentar o pessoal ouvindo FUNK na caixa de som estourada do celular a todo volume? Nada contra quem curte ouvir funk, só não obrigue os outros a ouvir com você!!

(por favor, tenha cuidado com o som vazando dos seus fones de ouvido)

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Por favor, faça isso na montanha!

(tenha consideração com os outros quando carregar grandes volumes)

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Esse me pegou! Cruzei muito as pernas no trem antes de saber que não podia, porque diminui o espaço para os que estão ao lado e ainda mais para os que estão em pé!

Ler livros pode, mas jornal não, porque necessita de muito espaço para abrir e folhear. Mas, por motivos óbvios, com essa regra eu não tive nenhum problema.

Em 2010, o slogan foi “Por favor, faça isso de novo”, e os cartazes foram para reforçar atitudes positivas:

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(ofereça o seu assento aos que precisam)

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(coopere para que mais passageiros possam sentar)

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(entre no trem quando for a sua vez)

As campanhas seguem, e todo mês um novo cartaz é colocado nas estações. Em 2011, os cartazes eram com animaizinhos:

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(por favor, note que se maquiar dentro do trem pode incomodar os outros)!!!

Esse foi o cartaz de outubro de 2011, o mês que eu cheguei no Japão!

Em 2012, novos desenhos:

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(você pode estar se divertindo, mas por favor, mantenha sua voz baixa no trem)

Pode até parecer um exagero em determinadas circunstâncias, mas a medida que vamos experimentando os benefícios de utilizar trens onde as pessoas, em sua grande maioria, cumprem essas regras… passamos, nós também, a zelar por elas.

Fontes: Gakuranman, Rocket News