Texto da Revista Usina da Cultura

Pessoal

MUITO obrigada a todos que acessaram o blog e deixaram comentários, e também aos que me mandaram mensagens e e-mails de incentivo! Está sendo uma surpresa muito boa receber esses retornos!! Espero poder escrever sempre coisas bem interessantes pra dividir com vocês!

Este é o texto que saiu neste mês de maio na revista Usina da Cultura, de São Francisco de Paula/RS. A revista é nota 10, e o download é gratuito. Vale a pena conferir, tem poesia, fotografia, cultura, lazer e matérias super envolventes!

Uma cidade sem Lixeiras

Uma das primeiras coisas que chama a atenção em Tóquio é a ausência de lixeiras nas ruas. Não é fácil encontrar um lugar próprio para descartar o lixo por aqui.

A primeira reação a essa informação poderia ser imaginar uma cidade extremamente suja e mal cuidada, certo?  Não no Japão. As ruas são surpreendentemente limpas, o que é ainda mais incrível se considerarmos a quantidade de pessoas que aqui vivem e circulam.

“Como é possível?” – me perguntei já no meu primeiro dia em Tóquio, em uma caminhada pela cidade. Comprei um café para ajudar a segurar o sono (são 12h de fuso horário), e segui andando. Assim que o café acabou, nada de lixeiras. Nem em frente a propriedades particulares, nem em praças, nem na estação de trem. Fui encontrar em uma loja de conveniência (aqui são chamadas de “konbini”), que é praticamente a única opção para quem quer se desfazer de algum lixinho.

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As raras lixeiras das lojas de conveniência são sempre assim: tudo separadinho para reciclagem.

 

Acontece que o lixo por aqui é uma coisa muito séria, e é considerada responsabilidade de cada cidadão descartá-lo corretamente. Por isso, os japoneses não jogam lixo no chão. Se não houver um konbini por perto, carregam o que precisam jogar fora até suas casas, onde podem descartar tudo corretamente – obedecendo, é claro, as regras de cada prefeitura quanto à separação para reciclagem. Onde eu moro, o lixo é separado em pelo menos 7 categorias.

Além disso, preocupam-se em limpar o que eventualmente alguém sujar. É raro encontrar um gari: quase sempre são os próprios cidadãos que fazem a limpeza das ruas e espaços comuns.

Os benefícios da limpeza vão muito além de viver em uma cidade bonita. Por exemplo, quando chove forte: aqui nunca alaga, pois não há sujeira bloqueando os bueiros!

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Uma das ruas mais conhecidas de Tóquio, a Takeshita-dori, está sempre cheia de gente – mas nunca de lixo! (foto: Cecilia Sanchez)

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Os parques, sempre limpinhos!

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“Tapete” de folhas de Ginko Biloba. Mesmo sem lixeiras por perto, nada de sujeira no chão. (foto: Estela Souza)

 

Se dá trabalho? Um pouco, no início. Fica mais fácil quando vira um hábito. E, na minha humilde opinião, é um esforço muito pequeno para um resultado tão grandioso.

Arigatou!

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Guam

Sobre estar morando na Ásia, uma das coisas que eu mais gosto é o contato com o que até então era completamente desconhecidos para mim.

Por exemplo Guam, de onde eu jamais havia ouvido falar antes de morar no Japão! Passado algum tempo aqui, descobrimos que é um destino muito popular para férias, já que fica a menos de quatro horas de vôo partindo de Tóquio. Surgiu uma oportunidade de uns dias de folga, e nós decidimos ir pra lá!

A ilha de Guam, em área, é só um pouquinho maior que Montevideo. Pertence aos Estados Unidos, e fica no conjunto das ilhas Marianas – que fazem parte da Micronésia. Em relação ao Japão, Guam fica ao sul, e ao leste das Filipinas. É necessário bastante zoom no Google Maps para poder ver!

Chegamos lá quase a meia noite, e já tivemos uma ótima impressão. No desembarque do aeroporto, havia um quiosque de boas-vindas com o nome de alguns hotéis, mas o nosso não estava na lista. A senhora que atendia ali (sim, estava aberto aquela hora da noite em um dia de semana), viu que olhávamos e nos chamou, oferecendo ajuda. Telefonou para o nosso hotel para confirmar o transfer, e ainda nos deu várias dicas sobre passeios, shoppings e sobre uma feira/festival que aconteceria nos próximos dias.

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Na manhã seguinte, ficamos surpresos com a quantidade de japoneses por lá. Nem parecia que estávamos fora do Japão! Na piscina do hotel, nós éramos os únicos não-japas. O que é bem engraçado, pois eles têm um jeito bem peculiar de aproveitar praia, sol e piscina:

Cobertos. Eis aqui alguns exemplares que eu pude clicar:

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Além de filtro solar, eles usam roupas longas, sombrinhas, chapéus com abas enormes – e entram assim mesmo na água. Talvez seja esse um dos segredos da pele asiática, que nunca acusa a idade! Eu e o Tiago brincamos dizendo que quando um japonês aparenta ter 70 anos, provavelmente deve estar com mais de 100.

Não é a toa que MUITAS placas, menus e mapas em Guam estão escritos primeiro em japonês, depois em inglês: fui pesquisar alguns números, e encontrei no Japan Times o seguinte:

  • Os japoneses realmente são os principais visitantes de Guam. Em 2012, foram aproximadamente 929.000 nipônicos desembarcando na ilha, o que representa 71% do total anual de turistas;
  • Um único japonês deixa em Guam uma média de quase $1.400 em sua visita. Eles curtem muito fazer compras.

No final de semana o hotel encheu mais, e apareceram outras nacionalidades de turistas. A maioria asiáticos, é claro, mas também alguns “americanos”. Entre aspas, porque o povo de Guam também é americano!

Por falar em hotel, o nosso era extremamente bem localizado. Os principais hotéis e resorts ficam nas praias de Tumon e Tamuning. O nosso era em Tumon, onde fica o “centrinho” com as lojas, bares e restaurantes. A praia é com areia fina e bem branquinha, e a água é de uma cor que só os olhos conseguem propriamente captar. Há muitos corais, logo, muitos peixes – que tivemos a oportunidade de ver fazendo mergulho.

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Há muitos militares norte-americanos que moram em Guam em função da importante base aeronaval que os Estados Unidos têm lá. É uma base bem estratégica, pois a localização é conveniente para operações na Ásia e na Oceania.

Aliás, a história de guerras e ocupações dessa ilha, que é a maior da região, não é nada pacífica. Foi colonizada primeiramente por espanhóis! Tanto que a língua local, o Chamorro, tem várias palavras semelhantes e até iguais as da língua espanhola.

Depois da Guerra Hispano-Americana, Guam foi dominada pelos Estados Unidos até 1941, quando os japoneses invadiram e ocuparam a ilha até 1944, ano em que foi tomada de volta pelos EUA.

No segundo dia, alugamos um carro e saímos a passear pela ilha. Visitamos o Pacific War Museum – um museu pequeno, mas fascinante – onde pudemos conhecer mais sobre essa violenta história e ver artefatos de guerra usados por japoneses e americanos neste período.

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Uma das descobertas mais interessantes para mim foi Shoichi Yokoi, um sargento do exército japonês que foi encontrado escondido em uma caverna em 1972. 1972!!!! Quase 28 anos após o fim da guerra! Ele e outros japoneses, que foram encontrados nos anos seguintes a 1945, se esconderam nas matas para não se render. Isso porque, no Japão, quem se rende é desonrado, e a honra é o que há de mais importante. Os números são impressionantes: 18.000 japoneses foram mortos em 1944 na II Batalha de Guam, e apenas 485 se renderam. :- (

Os numerosos lugares relacionados à guerra são acessíveis, e estão espalhados em diversas partes da ilha: fortes, locais onde ocorreram batalhas, cavernas, material bélico… Correndo na beira da praia de Tumon, o Tiago passou por uma trincheira! Pena que ele estava sem a câmera. Aqui um dos locais que visitamos, o Nimitz Hill:

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Outro ponto turístico famoso da Ilha é o “Two Lovers Point”, ou “Puntan dos Amantes”. Diz a lenda que um casalzinho de jovens apaixonados se jogou de mãos dadas do penhasco, pois ela era prometida a um capitão espanhol e eles não poderiam ficar juntos. Esse é um dos pontos turísticos mais famosos de Guam. Fica ao norte da ilha, e propicia uma vista linda da baía de Tumon. Casamentos também são realizados lá, inclusive muitos japoneses vão se casar em Guam.

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Também fomos conferir a Feira da qual a senhora nos falou – Guam Micronesia Island Fair. Foi uma delícia! Conversamos com algumas pessoas, comemos um churrasquinho em uma das barraquinhas de comida, assistimos a um show de dança típica dos Chamorros (pré-colonização) e vimos de perto como os locais se divertem. Foi muita sorte estarmos lá justamente nos dias da feira!

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No hotel, também assistimos um show de dança típica dos Chamorros, que estava ocorrendo em uma festa particular de japoneses – possivelmente um casamento. Foi muito bonito! As mulheres dançam movimentos semelhantes aos da Hula, e os homens simulam lutas, usando enormes cascos de tartarugas como escudo.

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Bom, esta foi a nossa mais recente aventura. As férias acabaram, e infelizmente também não temos visitas agendadas. Ou seja, tudo volta à rotina agora, o que certamente vai me permitir escrever com mais frequência.

じゃまた! Até logo!

Churrasco no Japão

Como bons gaúchos que somos, uma das nossas maiores preocupações sobre a mudança para Tóquio era como sobreviveríamos sem a nossa dupla sagrada: churrasco e chimarrão.

O chimarrão nós tratamos de garantir antes mesmo de sair do Brasil: cuia, bomba e 6kg de erva mate embalada à vácuo foram distribuídos nas nossas malas, e vieram para o Japão conosco. Além disso, deixamos familiares em sobreaviso para enviar mais quando necessário.

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Mas e o churrasco? Não tinha como trazer picanha e costela na mala. Muito menos a churrasqueira! Então, chegando aqui, começamos a arquitetar o que faríamos quando batesse aquela saudade do nosso amado churrasquinho.

Ainda nem havíamos alugado apartamento e já pensávamos em comprar uma churrasqueirinha “paulista” para a sacada, mas fomos avisados por amigos que já moram aqui há mais tempo que não é permitido fazer churrasco na maioria dos prédios e parques, porque a fumaça pode incomodar. Essa é a filosofia do japonês: se vai incomodar alguém, é proibido.

Logo descobrimos que nem tudo estava perdido quando conhecemos o Barbacoa (www.barbacoa.com.br), rede de churrascarias que tem 3 restaurantes aqui em Tokyo. Uma delícia! O mais perto da nossa casa é o de Aoyama – aproximadamente 15 minutos de bicicleta. O preço para um almoço no final de semana, incluindo Buffet, Churrasco, uma bebida e sobremesa fica em torno de 3.600 JPY, que hoje dá mais ou menos R$75,00/pessoa.

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Fomos também conhecer o Tucano’s (http://www.pjgroup.jp/tucanos/p_tucanos/), outra churrascaria brasileira que fica em Shibuya. A noite, tem até umas meninas que fazem show de samba e convidam o pessoal para dançar. Os japoneses parecem adorar! Aqui o almoço de domingo sai por 2.900JPY sem bebida, ou seja, mais ou menos R$60,00/pessoa.

Ok, já são algumas opções. Mas definitivamente não para ir todos os finais de semana.

Uma curiosidade daqui é que os restaurantes costumam ter um limite de 2 horas para permanência. Faltando alguns minutos, o garçom anuncia o “Last Order” e em seguida já traz a conta. É interessante, pois assim o restaurante garante o giro. É possível planejar melhor as reservas, o tempo máximo de espera, etc. Mas a verdadeira razão dessa regra é, segundo nossa suspeita, o fato de que se o restaurante não estabelecesse um limite de tempo, as pessoas passariam o dia inteirinho – ou a noite – ali.

Mas a graça do churrasco para nós, e aqui só quem é gaúcho entende, não é apenas comer. É toda a “função” que já se inicia com a escolha da carne, e que reúne todos por horas às voltas da churrasqueira, beliscando aperitivos e contando “causos”.

Imagine a nossa felicidade quando, na entrega das chaves do nosso apartamento, durante a “palestra” explicando as regras do edifício, fomos informados que é permitido fazer churrasco nesse prédio!!! Nossa reação foi tão descontrolada que a japonesa quase mudou de idéia. Veja este vídeo e imagine a cena.

Logo já compramos a nossa churrasquerinha, carvão e apetrechos para assar.

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Aos poucos fomos descobrindo mercados de produtos brasileiros que entregam em casa, resolvendo também o nosso medo de ficar sem erva-mate.

Quitandinha: http://www.quitandinha.com

Tele-Amigos: http://www.tele-amigos.com

Bom Preço: http://www.bomprecomercado.com/

A carne é quase sempre australiana, e é bem gostosa! Dá pra comprar em bloco ou fatiada, escolhendo inclusive a espessura do corte, e o kg custa só R$38,00!!!! Além da picanha, um outro corte que conquistou nossos corações foi a “bananinha da costela”, aproximadamente R$34,00/kg.Já fizemos vários churrascos aqui na nossa sacadinha, e também ao ar livre nos parques onde é permitido. Até o 20 de setembro do ano passado comemoramos com churrasco.

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Tenho MUITA sorte de ter me casado com um dos dois melhores assadores do mundo!!! (o outro é meu pai). O churrasco do Tiago fica SEMPRE um espetáculo, só de escrever já fico com água na boca! 🙂

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É claro que temos muita saudade do ritual tradicional do nosso churrasquinho gaúcho, mas aqui também nos viramos muito bem!!!